A festa começou
Não vou chamá-lo de Papai Joel, em alusão ao homônimo nariz-de-coxinha que treina por essas bandas, porque, para o torcedor do Detroit Red Wings, você é uma mãe.
Quantas vezes um time seu enfrentou os Red Wings nos playoffs? Cinco. E quantas vezes um time seu perdeu para os Red Wings nos playoffs? Cinco.
Os Blues de 1997, 1998 e 2002, o Avalanche de 2008 e os Blackhawks de 2009 foram atropelados pelos Red Wings em seu caminho para a Copa Stanley, ainda que da última vez eles tenham ficado a um jogo do título.
Para quem é supersticioso, enfrentar um time seu é sinal de (muita) sorte. Cinco confrontos, cinco finais de Copa, quatro títulos.
Os Red Wings são supersticiosos, Joel. Até a televisão abriu espaço para o assunto durante a transmissão do jogo 3. Em todos os jogos nos playoffs, durante o aquecimento, ao faltarem três minutos para o fim, Niklas Kronwall chuta o disco para uma defesa de luva de Jimmy Howard. Ninguém do elenco atual sabe explicar ao certo o por quê. Apesar disso, eles mantêm vivo um hábito que já ganha contornos de tradição, que se repete religiosamente desde 2002, inventado por Nicklas Lidstrom e Dominik Hasek.
Com os torcedores não seria diferente. No grupo Red Wings Brasil no Facebook, os seguidores não permitem que determinado torcedor escreva sobre o time. Pior, o nome do sujeito sequer pode ser mencionado. Segundo eles, dá azar. Há até um roteiro definindo quem deve escrever o tópico do dia do jogo — eu mesmo escrevi um e não me atrevi mais, porque o Detroit perdeu naquela noite.
Você deve ter em mente que este novo encontro com o Detroit é diferente. Ao contrário das outras vezes, agora o seu time é o favorito. Foi o Chicago que ganhou de todo mundo durante a temporada regular e conquistou o Troféu dos Presidentes com semanas de antecedência, que enfiou 7-1 nos Red Wings na Joe Louis Arena, onde venceram nove dos últimos dez jogos, e que é o maior favorito a conquistar a Copa Stanley de 2013.
Os seus outros times entraram sempre como azarões, eram a zebra, sem a responsabilidade de ter que vencer, papel que agora cabe ao Detroit. Ao Chicago sobra a obrigação de ganhar e a certeza de que a torcida não vai perdoá-lo se algo diferente disso acontecer.
E depois de três jogos, os Blackhawks perdem o confronto por 2-1.
E agora, Joel?
Nunca fez tanto sentido a seguinte máxima: o Chicago é imbatível, exceto quando perde para o Detroit.
E não foram duas derrotas ao acaso. Os Red Wings superaram os Blackhawks em quase todas as situações de jogo.
Você viu os números? 37 a 29 em faceoffs, 28 a 22 em trancos, 15 a 12 em chutes bloqueados. É verdade que nos times especiais houve empate e que o Chicago chutou mais ao gol (40 a 30), mas de que adianta se o goleiro Jimmy Howard não deixa passar nada?
Em dois jogos, Howard defendeu 58 dos 60 chutes. O goleiro acumula excepcionais 92,3% de defesas nos playoffs, mas considerando apenas os jogos contra os Blackhawks o índice supera os 95%. Enquanto isso, Corey Crawford sofreu 7 gols em 60 chutes.
Isso não muda a realidade: o Detroit tem o time menos qualificado do confronto, mas os últimos 120 minutos não deixaram dúvidas sobre quem tem o time mais esforçado, Joel.
No jogo 3, os Red Wings contaram com gols da linha 3 e da linha 4, num intervalo de apenas 31 segundos, para abrir 2-0 no placar, primeiro com um golaço de Gustav Nyquist, que nunca mais sairá do time, depois com Drew Miller, um gol sujo, gol de playoffs.
Quem é o Miller do seu time? Quem é o Patrick Eaves dos Blackhawks? Não venha me dizer que é o babaca do Andrew Shaw!
Eu sei que o Detroit distribuiu trancos a noite inteira, que Justin Abdelkader e Johan Franzen cansaram de carimbar seus jogadores nas bordas e que tudo isso contribuiu para o clima de rivalidade que tomou conta da Joe, mas a atitude de Shaw nos instantes finais rebaixa a nota do Chicago. Um time sem classe.
Não gostaria de falar de arbitragem, mas lhe dou razão quando você reclama do gol mal anulado. Eu também acho que não foi nada e que o empate naquele momento poderia mudar a história do jogo e do confronto. Acho que os árbitros sentiram a pressão por causa do gol anterior, aquele em que o Niklas Hjalmarsson quase matou o Franzen e, na sequência do lance, Patrick Kane desencantou. Um erro para compensar o outro, ao meu ver.
A reação do Chicago acabou em outro gol antológico de Pavel Datsyuk. Quando o russo pega o disco do lado esquerdo, perto do círculo de faceoff e chuta, a torcida já se levanta comemorando. Virou macete.
Você deve estar se perguntando por que escolhi você como destinatário desta carta.
Eu poderia escrever para Carlo Colaiacovo, que parecia o Chris Chelios, em sua melhor atuação com a camisa vermelha. Ou para Henrik Zetterberg, que tem super-poderes e consegue fazer os outros (Jonathan Toews) ficarem invisíveis. Ou para Miller, que se joga para bloquear três chutes em desvantagem numérica da mesma forma que se atira para empurrar o disco pro gol. Ou para Howard, que se tornou um goleiro intransponível. Ou para Nyquist, que demonstrou muita tranquilidade para marcar um gol maravilhoso...
Eu não consegui escolher apenas um nome dos Red Wings, então preferi escrever pra você.
Joel, muito obrigado por tudo.





