Com vocês, Mitch Albom.
Senhoras e senhores do meu Brasil varonil.
Desta vez venho trazer a tradução autorizada do "reprint" da coluna de Mitch Albom no Detroit Free Press (www.freep.com) de 27 de março de 1997, sobre um dos maiores, melhores, mais marcantes e inesquecíveis jogos do Detroit Red Wings de todos os tempos.
Dado o interesse na comunidade Detroit Red Wings Brasil pelo 4o. jogo entre Detroit Red Wings e Colorado Avalanche naquela temporada regular e, coincidentemente, a coluna tendo sito "repostada" no site, no último dia 27, além de todos os rumores sobre a volta do BigMac ao Wings entrei em contato com Mitch Albom e pedi sua autorização para traduzí-la.
Prontamente fui respondido. Com uma humildade incrível, Mitch pediu que os creditos fossem dados à Freep.com, e assim está feito.
Aproveitem.
"Flashback de Mitch Albom: A maior briga de McCarty e a maior revanche do Wings.
Darren McCarty nunca mais vai pagar por uma refeição
Comecemos pelo começo, no final do primeiro período de quarta-feira (26 de março de 1997), quando ele se afastou do juiz de linha e nocauteou Claude Limeux, do Colorado.
Lemieux caiu de joelhos, os fãs pularam, e você poderia dar adeus a qualquer possibilidade de um jogo normal nessa noite. Era Noite de Luta na Joe Louis Arena. E McCarty não se deu por satisfeito. Ele surrou Lemieux de novo com o punho esquerdo e, quando Lemiux se agachou, segurando seu rosto ensangüentado, McCarty o segurou pela nuca com uma mão e bateu repetidamente com a outra, dando socos que pareciam ter a força de todo o estádio.
Antes de terminar, McCarty ainda arrastou Lemieux, tonto e ensangüentado, até o banco do Wings – como um homem das cavernas arrastando sua presa para a porta da caverna, mostrando para os parceiros. Só faltou McCarty bater no peito e fazer o grito do Tarzan.
Mas, com isso tudo, quem perceberia? O jogo se transformou em ataques que fizeram o gelo da JLA parecer as eliminatórias de um campeonato de brutamontes.
Além de Peter Forsberg e Igor Larionov – dois dos mais não-violentos e criativos jogadores do hockey – estarem rolando como em brigas de colégio, além das estrelas Brendan Shanahan e Adam Foote dançando tango com músculos, mas – e isso não é um exagero – os dois goleiros estavam se matando no centro do gelo.
Os goleiros? Sim. Patrick Roy e Mike Vernon, possuídos pelo espírito violento, agora estavam dançando sob camadas dos seus equipamentos, pads desajeitados, calças frouxas e molhadas enquanto eles batiam, socavam, apertavam, empurravam e arranhavam um ao outro. Estranho? Era como assistir a uma luta de sumo numa pilha de roupa suja.
Os goleiros?
Hockeytown, certo?
Isso foi o que a quarta-feira foi a maior parte da noite, não uma exibição entre os dois melhores times do hockey, não uma nova partida entre os finalistas da Conferencia Leste, mas um jogo em que você não conseguia ver dois minutos de patinação sem ver cinco minutos de pancada, giros, juramentos, sangramentos, tapas, gritos e um número sendo levado para o penalty box.
E, é claro, o jogo foi totalmente mudado. Não é por acaso que um gol foi marcado antes de McCarty socar Lemieux e seis gols foram marcados nos 21 minutos seguintes. Você tende a se desconcentrar quando seu rosto está cheio de curativos.
“Nos dois primeiros períodos, ganhar o jogo parecia totalmente irrelevante”, admitiu o capitão do Red Wings, Steve Yzerman.
Mas dá pra alguém ficar surpreso? Fãs em Detroit esperavam pelo jogo da quarta-feira como adolescentes esperam pelo próximo “A Hora do Pesadelo” estrear. Eles queriam a revanche pela noite sangrenta na temporada passada, quando Lemieux pegou Kris Draper e o “apunhalou pelas costas”, jogando contra a parede, quebrando sua mandíbula. Isso não tem nada a ver com hockey e tudo a ver com força bruta, presunção e sentimento de ninguém pode com a gente, bicho, não se meta com a gente, bicho, a gente vai te quebrar, bicho.
Vocês me desculpem se eu não estou impressionado. A noite toda eu fiquei vendo zooms no telão, de crianças na arquibancada assistindo a essas lutas, vibrando e rindo. E vivendo numa cidade onde, nas últimas duas semanas, nós enterramos meia-dúzia de crianças por conta de uma violência sem sentido, eu não me impressiono mais com derramamento de sangue. Eu perdi o gosto de ter orgulho de ver alguém brigar e dizer que isso é um tipo de vitória pra mim.
No hockey? McCarty estava de vota brigando no segundo período. Bem como todo mundo. Quando o jogo acabou, haviam 39 penalidades e brigas demais pra listar, quem quiser que se lembre. Em um ponto, Aaron Ward e Brent Severyn brigaram, Severyn foi despido até a cintura, peito nu, parecendo um lutador de 1890.
Ah, sim. O Wings ganhou na prorrogação.
Precisei de todos esses parágrafos pra chegar aí.
A melhor revanche
Mas não deveria. Porque aqui está a melhor parte da noite de quarta-feira, quando o jogo voltou à sanidade, quando as brigas pararam e o sangue secou, voltou a ser sobre patinação, passe, checks legais e defesas. E isso foi sob a luz dos holofotes mais altos que o Wings reagiram de um déficit de 5-3, empataram o jogo num wraparound, e encurralaram, perseguiram e levaram o Avalanche ao limite.
“É uma grande rivalidade, não é?” McCarty jorrava no vestiário, cercado por repórteres. “Todo mundo envolvido... cara, isso é hockey do bom!”
McCarty tinha saltado nos braços dos seus companheiros de equipe depois do gol. E, quando viu Draper, deu um abraço longo.
“Mac é um jogador da equipe e ele queria mostrar isso pra mim,” disse Draper. “Eu nos considero melhores amigos e eu fiquei feliz por ele ter feito o que fez por mim.”
“Então você considera que o caso Lemieux está encerrado?” perguntaram a Draper.
Ele parou. “Claro. Eu gosto de encerramentos. Se isso é um encerramento, então foi perfeito.”
O leitor honesto vai admitir que o quê McCarty fez com Lemieux foi tão feio quanto o que Lemieux fez com Draper. Mas os esportes, raramente, giram em torno da honestidade e sim da parcialidade. Então, você vê Draper e McCarty e talvez, mesmo sem querer, você sorri.
“Cara, isso é hockey do bom,” McCarty disse novamente.
Você não pode esconder a emoção, mesmo que você argumente com a metodologia. Em uma noite, McCarty lutou contra demônios e ouviu anjos cantarem.
Fique com o que achar melhor."
zeh.
Go Wings!