sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O objetivo final: um Campeonato para a o time e a cidade

Por Mitch Albom (sábado, 7 de junho de 1997 [dia do jogo 4 entre Detroit e Philadelphia])

Sua esposa diz que ele entra em casa e olha através dela. Senta a mesa ou no sofá, mas parece olhar através dela. Claro, ele tenta ser agradável, conversa sobre a filha ou sobre a casa – nunca sobre hóquei – mas não está realmente lá. Seus olhos fixados em alguma coisa bem longe. Nesse sentido, imagino, Steve Yzerman é como muitos pais de família. Ele não quer falar sobre isso.

Mas aquilo que ele não expressa hoje não é frustração ou vergonha, ainda que, como todos nós, ele tenha algumas. Não, o que cala Yzerman é a aproximação de um tsunami de felicidade. Ele pode escutá-lo chegando à cidade, o vê no horizonte. Se pergunta, “o que faço agora?”

Isso é o que ele faz, mergulha em si mesmo. Para de ler jornais, ouvir o rádio ou assistir televisão, franze as sobrancelhas e fala menos que o normal, afinal a batalha não terminou, ainda não, ainda não e, numa atitude típica do homem que Detroit chama de Capitão, ele tem no silêncio seu maior aliado. A quietude é sua amiga, vai patinar ao seu lado esta noite, e Yzerman vai se acalmar, dizendo a si mesmo que, por baixo da chuva de gritos e aplausos, é um jogo com qualquer outro, só mais uma noite para suar baldes e fazer o que for preciso para ganhar.

E é claro, seu coração vai bater um milhão de vezes por minuto.

Ao entrar no mundo de escrever sobre atletas, você faz um acordo de nunca perder o foco, sempre ficar um pouco afastado e não idolatrar ninguém. Eu posso quebrar esse acordo hoje. Steve Yzerman, um dos verdadeiros cavalheiros no mundo dos esportes, chegou a Detroit pouco antes de mim, em meados dos anos 80.

Nos conhecemos desde então, desde que ele era muito jovem para beber, desde que morava sozinho num apartamento, desde que nós dois tínhamos cabelo o bastante para fazer tranças.

Agora ele é casado, um pai, mora numa casa nova. Tem 32 anos, e está possivelmente no seu último contrato como jogador. Ele tem mais cicatrizes e menos cabelo do que quando era um garoto tímido de 18 anos saído dos subúrbios de Ottawa. Na verdade, parece que conhecemos cada ângulo de Yzerman, exceto um: nunca o vimos sorrindo no último dia da temporada.
Hoje à noite, em algum momento antes da meia-noite, pode finalmente acontecer. E quando acontecer para o Capitão, vai acontecer para nós.

Houve um momento, antes do jogo 3 das Finais, quando os Wings foram apresentados e a Joe Louis Arena, lotada, esteve fora de controle. Foi quando o nome de Steve Yzerman foi dito. O barulho era ensurdecedor, atingia o teto e voltava ao gelo. O locutor se silenciou, esperando a hora em que o sistema de som voltasse a ser mais alto que a torcida.

“Eu não esperava nada daquilo, Só consigo descrever como se você tem filhos, e ficou fora por um tempo, e você volta para casa, o cachorro está latindo e as crianças vem correndo todas agitadas... É como voltar para casa”.

E é por isso que O Capitão significa tanto para essa cidade. Porque nesses anos todos, ele se tornou uma parte de nós, mais um entre os cidadãos trabalhadores que às vezes se encontram em situações complicadas, mas sempre acreditam que tudo vai dar certo. Acreditem, Yzerman já teve que falar “as coisas vão melhorar” muito mais vezes do que nós.

Ele falou nos anos 80, quando o time era ma piada. Falou no começo dos anos 90, quando St. Louis, Toronto e San Jose mandaram os Wings para casa mais cedo. Falou dois anos atrás, quando New Jersey envergonhou Detroit frente ao mundo todo. As coisas vão melhorar, elas tem que melhorar.

Ele até disse isso no começo da temporada, quando virou isca para trocas, lembra? Boatos que seu armário já estava vazio e tudo. Então ele pisou no gelo da Joe Louis Arena, na primeira partida em casa na temporada, e a multidão lhe aplaudiu freneticamente, uma ovação tão intensa que faria com que qualquer um que simplesmente pensasse em trocá-lo tivesse que entrar no Programa de Proteção a Testemunhas. Naquela noite Yzerman se tornou um Red Wing pelo resto da vida.

Esta noite, ele vai entrar para a história.

“Passa pela cabeça, ‘e se ganharmos’”, ele admitiu na sexta-feira, “mas estou me esforçando para afastar esse pensamento. O que funcionou para nós até agora foi ignorar tudo ao nosso redor e só jogar hóquei”.

Yzerman inspirou essa filosofia. Depois da segunda derrota para St. Louis na primeira rodada, ele fez um raro e breve discurso. Disse o que era preciso ser dito, “não vamos sair de novo, todos tem que se entregar no gelo”.

De lá para cá os Wings se tornaram uma máquina, vencendo 13 de 15 jogos, e estão a uma vitória da Copa. Só esse discurso poderia lhe valer o troféu Conn Smythe [MVP dos playoffs], mas ele vem demonstrando com ações aquilo que falou. Ele arma jogadas, é fantástico na defesa, trabalha tão (ou mais) do que qualquer outro no gelo, e tem um gol chave em cada jogo decisivo –já são sete nesses playoffs –e é o cara que me disse, algumas semanas atrás, “ninguém nunca disse que eu era bom na defesa até eu parar de marcar pontos”.

A verdade é que Yzerman mudou se estilo de jogo pelo bem do time, qualquer coisa para chegar nessa hora. Ao longo dos anos, ele viu Wayne Gretzky, Mario Lemieux e Mark Messier juntarem anéis de campeão. Ano passado foi a vez de Joe Sakic, outro nº 19 –mais novo mas muito parecido com o antigo Yzerman –fazer o mesmo.

E esse tempo todo, seu dedo não tinha um anel.

Ele nunca reclamou, nunca pediu para ser trocado ou queimou um de seus companheiros menos esforçados. E se você perguntar para os jogadores de Detroit quem deve ser o primeiro a dar uma volta no gelo com a Copa, a resposta será unânime.

“Não apenas seus companheiros gostam e respeitam Stevie, mas os adversários também sentem isso”, disse Darren McCarty.

E veja essa de Joe Kocur, que poderia ver essa conquista pelo ponto de vista de sua virada pessoal, mas diz que “o que vai fazer essa vitória tão especial é poder ganhar ao lado de caras como Stevie”.

É isso que um capitão faz, ele faz com que as pessoas deixem de pensar em si mesmas.

Admito, Steve mudou ao longo dos anos. Ele não é mais o garoto tímido demais para se apresentar a Gordie Howe, ou aquele que se desculpava por xingar ao entrar no banco de castigo.

Hoje ele é mais maduro, moldado pela paciência, endurecido pelas decepções, mas ainda assim gentil o bastante para sempre dar autógrafos a uma criança, nunca ser mal-educado numa entrevista e ficar envergonhado quando elogiado por uma mulher.

Acima de tudo, das lesões, das esnobadas da imprensa nacional, Yzerman é e sempre foi Detroit. Ele começou a carreira de vermelho e vai terminar de vermelho. Sua mãe certa vez me contou que quando ele era pequeno, e ela o levava à escola, às vezes ele voltava para casa logo que ela ia embora.

Ele sempre soube seu lugar, e hoje à noite seu lugar vai ser lá no meio do gelo.

Pergunto se ele está fazendo algo para guardar sobre essa semana, gravando os jogos ou recortando páginas de jornal. Ele responde que não, que só quer se preparar e não baixar a guarda.

Ele está com o mesmo olhar do último jogo, quando o público entrou em delírio ao seu nome ser anunciado, e Yzerman estava dividido entre um momento feliz e o medo de se entregar ao momento. Ele levantou o taco e agradeceu à torcida, mas seu com um olhar de matador.

Mas o tsunami está chegando, e então ele vai poder se soltar. Com uma vitória dos Wings, Yzerman não vai precisar segurar sua emoção, poderá abandonar a solidão. Será o fim da longa e solitária espera. Depois de 42 anos, o time dos trabalhadores vai sentir o gosto de “olha-para-mim-nós-ganhamos” que Edmonton, Pittsburgh e Nova Iorque sentiram. E esse barulho que Yzerman escuta é seu destino chegando. Se a buzina tocar por um final feliz esta noite, nada mais apropriado que o nº 19 começar a festa, levantar a Copa, jogar a cabeça para trás e soltar a fera que é, da brilhante carreira que construiu.

Afinal, ele é O Capitão.

----------------------
Matéria original (para cadastrados)
http://mitchalbom.com/journalism/article/1834

5 comentários:

Rodrigo Motta disse...

Esse título eu assisti. Putz, quem disse que homem não chora!!!

O C continuará para sempre no peito da camisa 19.

Everton disse...

Que texto!

E quantas lembranças!

Steve a LENDA!

Guilherme Favero disse...

Essa matéria foi do cara@#$&@o, no dia q Stevie Y ia ser imortalizado na Stanley.

Certa vez eu baixei aquela coleção de 8 dvd's do Wings e esse jogo 4 era um que tinha completo. Só de lembrar aquele segundo gol do D-Mac e do Stevie Y levantando a Stanley me da arrepios..

Philippe disse...

é de arrepiar toda vez que falam do capitão!

Eduardo Costa disse...

De emocionar!!

Obrigado capitão!

E obrigado Calciolari, pelos textos geniais que está postando nesses dias. Fantástico trabalho.

O maior blogueiro do país!