sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Nada

Nada acontece, então vamos encher linguiça falando de rumores. Parece que Ken Holland ofereceu um contrato de 2 anos, a $2,5 milhões cada (ou $2,7, dependendo da fonte), para o defensor Carlos Colaiacovo.

Os Red Wings já haviam oferecido contrato de um ano de duração, mas o jogador quer assinar por três temporadas (e na lógica esquisita que os Wings estão adotando, quando alguém pede três você oferece dois).

Bom, melhor falar sobre possíveis contratos do que sobre o provável locaute (não greve, LOCAUTE) que parece cada vez mais certo.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Previsão: locaute

Pra começar, antes de qualquer coisa: locaute não é greve.

Greve é provocada pelo empregado, quando insatisfeito com as condições de trabalho. Locaute (lock out, "trancar fora") é provocado pelo empregador, que não deixa o empregado trabalhar.

Ou seja, se você falar "greve" ao definir o que vai acontecer mês que vem na NHL, você está culpando os jogadores, que não tem culpa nenhuma nisso.

O problema são os donos de franquias. Homens de negócios que não sabem gerir seus negócios, que dizem que "os salários estão fora de controle", quando eles estão controlados pela renda total da Liga.

O problema são os donos, que assinam contratos valendo $98 milhões (oi, Parise e Suter), para depois tentar mudar totalmente os termos do Acordo Coletivo de Trabalho (CBA) e pagar, no fim das contas, $76 milhões, algo que ofende o bom-senso e mais do que cheira à má-fé.

Mas claro, Gary Bettman (que não trabalha para o crescimento da Liga, é somente um funcionário dos proprietários de time) não é burro hahaha, e sabe que a proposta feita pela NHL não tem nenhum cabimento. Para convencer os jogadores a aceitar uma fatia menor das rendas da Liga, Bettman com certeza mostrou gráficos, tabelas e cálculos mostrando o quanto a NHL cresceu nos últimos anos, ou seja, que o prejuízo não seria tão grande.

E foi se utilizando dessas projeções que o Sindicato de Jogadores (NHLPA) apresentou sua proposta para o novo CBA. Se a Liga cresce em torno de 7,6% ao ano, a NHLPA propôs diminuir o ritmo de crescimento das folhas salariais, com aumento de apenas 2%, 4% e 6% nas próximas três temporadas, com o lucro residual sendo dividido entre as franquias.

Mas não todas as franquias. A NHLPA compreende que, ao invés das discussões de 2004, em que o problema era claramente entre proprietários e jogadores, dessa vez o embate é entre grandes e pequenos proprietários.

Essa disputa existe em todas as Ligas, e é normalmente solucionada com a partilha de lucros. Na NFL, a maior fonte de renda (contratos de TV) é dividida entre todas as franquias. Na NBA, as franquias podem ceder até 50% de sua renda para a liga. As franquias da MLB cedem 31% do que ganham.

É esse fato que a NHLPA focou em sua proposta. Basicamente, os jogadores querem continuar ganhando o que ganham, e esperam que as franquias se entendam em como dividir a renda. Isso obviamente gera um conflito. Os Red Wings, Rangers, Flyers e Maple Leafs (só exemplos) ganham muito dinheiro, mas não podem gastar tudo, e tem que sustentar equipes falidas como Coyotes, Devils e Blue Jackets.

Num mundo ideal, essas franquias deixariam de existir (o que Panthers, Coyotes e Blue Jackets trazem de bom para a Liga?), mas obviamente a NHLPA não quer 80 ou 100 jogadores desempregados da noite pro dia. A solução é dividir melhor o que é gerado pela NHL como um todo, e é aí que está o atrito, entre os que só querem receber e os que não querem doar.

À primeira vista, a proposta da NHLPA parece razoável, e claramente visa o melhor tanto dos jogadores quanto da liga em geral. Mas os jogadores também querem que as definições contratuais (como duração dos contratos, assunto tratado pela NHL em sua proposta inicial) continuem as mesmas de hoje. Isso não agradou Bettman, que diz ainda haver uma grande diferença entre o entendimento dos jogadores e proprietários.

"Uma grande diferença" provavelmente significa um atraso no início da temporada. O CBA atual expira em 15 de setembro, daqui a um mês, e apenas duas semanas antes do início da temporada. A situação atual das conversas já fez com que os Red Wings cancelassem o tradicional Torneio de Prospectos que ocorre em Traverse City, antes do training camp principal. Também já foi divulgado que a NHL previu a possibilidade de cancelamento do Clássico de Inverno em caso de locaute, em seu contrato com a Universidade de Michigan.

As partes demoraram muito para começar a conversar, e a proposta inicial da NHL foi risível (entendemos que você sempre inicia uma negociação puxando um pouco para o seu lado, mas a proposta da NHL estava mais para um tiro de advertência), e a segunda proposta da NHLPA só veioapenas um mês depois (os jogadores sempre disseram que estavam dispostos a continuar com o mesmo CBA por mais um ano).

Por enquanto a vantagem aos olhos da mídia e dos torcedores está do lado dos jogadores. Enquanto a NHL propôs ferrar a vida de quem se arrisca noite após noite, o Sindicato ultrapassou seus limites ao sugerir uma nova forma de gestão da entidade, o que passa uma ideia de seriedade. E claro, não poderia ser de outra forma, já que os proprietários podem sobreviver sem um de seus brinquedos, mas os jogadores só tem o esporte como fonte de renda.

Itens importantes como o realinhamento e o piso salarial (o verdadeiro culpado pelo aumento de salários) ainda não foram discutidos, e dificilmente os envolvidos vão conseguir chegar a uma conclusão no próximo mês. Ou seja, uma previsão realista é de um locaute curto, como ocorreu com a NBA na última temporada, que começou no Natal e teve cada equipe jogando 66 partidas (inclusive patéticas sequências de três jogos em três noites).

O cancelamento de toda a temporada parece improvável, a situação é diferente de 2004. Hoje é disputa é pelas fatias da pizza, em 2004 a pizzaria foi demolida e tiveram que construir uma nova. Se a NHL for uma liga séria, não vai permitir a terceira paralisação em menos de duas décadas, mas hoje é difícil imaginar a temporada começando antes do Clássico de Inverno.

No fim das contas, quem perde nessa história é o torcedor. Embora dessa vez seja difícil ser manipulado (ainda acho incrível como em 2004 os proprietários conseguiram convencer os torcedores que a culpa era dos jogadores, "milionários mimados que só jogam por dinheiro", como se não fossem eles os bilionários que gerenciam suas franquias como quem joga The Sims, digitando "klapaucius" a cada sete anos e basicamente roubando o que é de direito dos atletas), fica difícil seguir uma Liga de palhaços que não sabe dividir uma fortuna de $3,5 milhões.

O que dizer a quem compra ingressos, camisas, pacotes de TV a cabo ou internet, ou àqueles que realmente cogitaram comprar passagens para assistir seu time em outro continente? O que dizer para a ESPN Brasil, que tentou recolocar o hóquei na grade da televisão, para mais uma vez ver a Liga sumir do mapa?

Como sempre, repito: amo hóquei, mas não suporto a NHL. Gary Bettman pode ser o rosto da Liga, o símbolo de tudo que está errado, mas não estaria lá se os proprietários de times não quisessem. E se os donos querem manter o Comissário que já passou por dois locautes...