quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Problemas à vista

A NHL, em nome dos donos de franquias, contratou uma empresa especializada em manipular verdades, e logo em seguida divulgou publicamente sua proposta ao Sindicato dos Jogadores (coisa que Gary Bettman disse que não faz), de divisão igualitária das Rendas Relacionadas ao Hóquei.

Essa divisão de 50% para cada lado sempre me pareceu mais justa, mesmo.

É interessante como funciona nossa cabeça. "São dois lados negociando, dê metade para cada e fica justo", desconsiderando que um lado é formado por 30 bilionários e o outro por mais de 700 milionários.

Mas também não seria justo que aqueles contratos já assinados fossem honrados? Se os atletas decidissem parar de treinar até receberem um aumento de 20%, todo mundo ficaria contra eles. É exatamente isso que os proprietários estão fazendo, e é isso que o Sindicato quer impedir.

Hoje a NHL e o Sindicato se reuniram mais uma vez, para que os atletas dessem uma resposta sobre a oferta da Liga. Os jogadores ofereceram três soluções, todas elas visando uma eventual divisão de 50% para cada lado.

Duas das propostas são planos graduais para atingir os 50%, com reduções que atingiriam a metade entre três e cinco anos. A terceira proposta é de aplicar os 50% imediatamente, mas com exceções para que os contratos assinados sejam cumpridos sem redução.

Nossa, isso parece... justo?

Sim. A NHL quer tanto a divisão pela metade, o Sindicato concordou. A diferença é quanto tempo leva para atingir essa meta.

(Se fosse aplicada imediatamente, como quera a NHL, os jogadores abririam mão de 12% de seus salários)

E a Liga concordou com alguma dessas propostas, e a temporada começa daqui duas semanas?

Não, gafanhoto. Bettman ficou na sala entre 10 e 15 minutos, ouviu as propostas, disse "Não" e foi embora. Basicamente, o único jeito dessa história ter acabado hoje era se os atletas tivessem assinado a proposta da Liga, que não parece aberta a qualquer tipo de negociação.

Então a NHL oferece 50%, o Sindicato aceita 50%, e a briga continua?

Pois é. A proposta da NHLteve cara de ultimato, para salvar uma temporada de 82 jogos, mas parece que a teimosia com os tal de 50% só existe porque a  NBA e a NFL conseguiram algo parecido.

Os proprietários colocaram suas fichas na importância de uma temporada de 82 jogos, o que para os atletas, sinceramente, não significa muita coisa. Encher arquibancadas por tantas partidas é importante para as franquias, mas para os atletas não vale a pena assinar um Acordo que não lhes agrada apenas para salvar esses 10 ou 20 jogos.

Essa disputa ridícula vai continuar por mais algum tempo. Agora parece um pouco mais simples, já que a porcentagem já parece definida, só precisamos saber como será aplicada. Embora as partes estejam cuspindo fogo agora (Bettman: "Foi um passo para trás, estamos desapontados"; Sidney Crosby: "Resumindo, as coisas não estão boas"), pelo menos algum alicerce foi construído, e esperamos que algo saia daí.

No momento, eles só concordam em uma coisa: hoje poderia ter sido um bom dia. Não foi.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Agora vai?

Ei, é verdade que a Liga finalmente propôs metade pra cada lado (franquias vs. jogadores) e a temporada vai seguir com os 82 jogos normalmente?

Sim, hoje a NHL apresentou uma proposta em que as Rendas Relacionadas ao Hóquei (HRR) são divididas em 50% para cada lado. A proposta valeria por seis anos, com opção para um sétimo.

Legal, se os atletas não aceitarem é porque são adultos mimados.

Calma lá. Lembre-se que sempre que falamos em porcentagens discutimos a famosa (e obscura) HRR. Antes de podermos falar se essa oferta é justa ou não, precisamos saber de que forma a HRR vai ser calculada.

Como já explicamos, a HRR não é a renda de tudo que entra em nome da NHL, pois alguns itens são deduzidos da conta. As deduções são significativas, tanto que, se no Acordo Coletivo expirado os jogadores recebiam entre 54 e 57% da HRR, isso era equivalente a apenas 50% da renda total.

Ou seja, se o cálculo de HRR continuar o mesmo, os 50% oferecidos não corresponderiam realmente à metade das receitas. Se a proposta acabar com as deduções, aí sim os 50% correspondem à realidade e os jogadores podem conversar.

Mas sinceramente, alguém acha que os proprietários teriam passado esse mês todo fazendo escarcéu apenas para mudar uma definição sem aplicação prática nenhuma? A oferta que a NHL pôs na mesa deve estar num meio termo, quem sabe diminuindo as deduções, mas não as excluindo por completo.

Pô, deixa eu ficar feliz...

Não sou pessimista, só espero para ver o que vai acontecer. Os representantes dos atletas vão analisar a proposta e devem dar uma resposta amanhã ou depois. Até agora, só disseram "Excelente começo", que é muito melhor que o "morram" que falaram da outra vez.

Além da divisão de receitas, o que mais traz a proposta?

Foi retomado o foco daquela primeira proposta, lidando com duração de contrato e coisas assim. Dessa vez a proposta não tem tons escravagistas, e tem como pontos principais:

  • mudança na duração do primeiro contrato (alguns dizem 2 anos, outros dizem 4);
  • limite de 5 anos para cada contrato;
  • atletas se tornam agentes-livres aos 28 anos, ou com oito temporadas na Liga;
  • manutenção da arbitragem; e
  • determinados salários da AHL contariam contra o teto da NHL.
E os jogadores vão ter redução salarial?

Sim, é impossível ter uma redução na porcentagem dos atletas sem reduzir seus salários, seja ela feita no próprio contrato ou por meio da caução.

Fontes indicam que atletas que tem contratos de longa duração serão recompensados por qualquer perda que tenham nessa temporada, por meio de pagamentos em até 10 anos. Essa ideia parece boa, até pensarmos que um moleque que hoje tem 13 anos daqui a pouco vai pagar o salário do Martin Brodeur (de onde você acha que vai sair esse dinheiro?)

Uma redução leva à diminuição do teto salarial, mas executivos disseram que, para a próxima temporada, um teto de transição de $70 milhões pode ser aplicado.

O que os atletas acham disso tudo?

O jornalista Adam Jahns falou com Steve Montador, que disse que a proposta da NHL realmente inclui uma redução no HRR (ou seja... pois é). Em geral, os jogadores sentem que essa é a primeira proposta séria que a Liga apresentou, e acham que é um bom ponto de partida para as próximas conversas.

A pergunta é: por que não fizeram isso em julho?

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(História paralela, mas que facilita a compreensão de algumas coisas.

Ontem o site Deadspin divulgou a informação, passada por um torcedor da NHL, que um grupo de consultoria foi contratado pela Liga para organizar grupos de pesquisas -- aquelas enquetes tipo "quando você pensa na NHL o que te vem na cabeça" -- e tomar uma percepção mais próxima da opinião pública em relação ao locaute.

O que isso tem a ver com qualquer coisa? O "lema pessoal" de Frank Luntz, fundador e dono da empresa, é "Não importa o que você fala, e sim o que eles ouvem". Ou seja, o grupo de consultoria é especializado em manipular verdades -- não "mentir", "MANIPULAR VERDADES".

Foi a empresa de Luntz que ajudou o UFC a ter público em arenas, e não só no pay-per-view; que ajudou a NFL a colocar a culpa em seus atletas pelo locaute do ano passado. Envolvido também em política, é por causa de Luntz que nos Estados Unidos ninguém mais fala em "aquecimento global", e sim "mudanças climáticas". Basicamente, o cara é especialista em construir argumentos e arquitetar a mentalidade coletiva, e usa isso para melhorar a imagem das companhias que o contratam.

E agora a NHL aparece com essa proposta. "Os times podem gastar num período de transição, vamos devolver salários por uma década, vamos dividir a renda ao meio". Se você não acha que essa forma de apresentar a proposta é ideia de Luntz, você é muito inocente.

/teoria da conspiração OFF)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sobre o locaute

Sei que todos estão acompanhando a movimentação da NHL e dos jogadores, e que já sabem que a Liga cancelou o calendário de jogos até o dia 24 de outubro. Para aqueles que não sabem, ou tem preguiça de ir atrás de notícias em inglês, um resumo básico, repetindo algumas coisas que já foram ditas anteriormente.

Então a Liga já cancelou jogos? Não teremos uma temporada completa, é isso?

Não exatamente. O calendário até o dia 24 foi cancelado, não os jogos. Isso significa que a temporada dificilmente começa ainda em outubro, mas os jogos podem ser condensados no futuro, com os mesmos 82 jogos em um menor espaço de tempo.

Mas esse cancelamento era mesmo necessário?

Mais ou menos. Os atletas sempre se dispuseram a continuar jogando sob os termos do antigo Acordo Coletivo de Trabalho, mas os donos preferem não começar a temporada sem uma negociação finalizada, por dois motivos.

O primeiro é que essa temporada sem Acordo estaria sujeita a uma paralisação a qualquer momento. Sem um termo que obrigue as partes a cumprir o combinado, tanto atletas quanto proprietários poderiam decidir cruzar os braços, e é melhor não começar a temporada do que ter uma paralisação no meio do ano.

O segundo é uma questão trabalhista, pelo risco de lesões ou algo parecido. Se um atleta se machuca em uma partida sem contrato algum, quem paga seu tratamento?

Falando nisso, e aqueles que já estavam lesionados antes do fim do antigo Acordo?

Aqueles jogadores, como por exemplo Chris Pronger, continuam recebendo salários. Além disso, o locaute não suspende o pagamento de bônus contratuais, portanto atletas como Zach Parise e Ryan Suter receberão esses bônus mesmo sem pisar no gelo.

Então vamos relembrar, pelo que os times e os jogadores estão brigando?

Dinheiro, claro. O antigo Acordo, assinado após o locaute de 2004, previa que os jogadores tinham direito a 57% do que ficou definido como Renda Relacionada a Hóquei, e hoje a NHL acha que o acordo foi muito generoso com os atletas.

Mas o que significa Renda Relacionada a Hóquei? É tudo que entra em nome da NHL, de camisas a ingressos?

Não, alguns itens são deduzidos. A Renda Relacionada a Hóquei (aqui chamada de HRR) é na verdade o saldo dentre a renda total e os itens deduzíveis.

O itens deduzíveis envolvem um cálculo confuso. Sobre camisas, por exemplo, apenas uma porcentagem daquele valor conta como HRR, e essa porcentagem varia dependendo se a compra foi feita no ginásio, em loja oficial ou loja comum. A porcentagem sobre as vendas de camarotes também varia, dependendo se a arena é de uso exclusivo ou compartilhado.

Os alimentos e bebidas vendidos em dias de jogam também contam, mas apenas 54%. O estacionamento também,  mas apenas o gerenciado pela franquia.

E tudo isso vai continuar sendo calculado da mesma forma?

Provavelmente não. Os donos querem aumentar a quantidade e a porcentagem dos itens deduzíveis, assim diminuindo a quantia definida como HRR. Os jogadores não aceitam isso, e dizem que, com essa forma de cálculo, eles só recebem metade do que entra nos caixas das franquias.

Apenas quando ficar definido o que é HRR é que as partes podem voltar a negociar a porcentagem dessa renda que será destinada aos jogadores.

Os jogadores querem continuar com a mesma definição de HRR, e com os mesmos 57%, mas aceitam uma redução para 52%. Os proprietários querem limitar o que é definido como HRR, e só aceitam pagar até 49% aos atletas, como nas outras grandes ligas americanas.

E quanto é pago nas outras ligas?

A NBA vai pagar entre 51,2% e 49%, a NFL em torno de 47%, e a MLB varia de 45% a 50%.

Mas vale lembrar que essas ligas geram muito mais dinheiro, e uma porcentagem menor de uma quantia menos acaba compensando. Além disso, a NHL tem concorrentes que as outras ligas não tem, por isso os jogadores tem melhores condições para negociar.

Mas se os salários estão vinculados à renda, como os proprietários podem alegar estar perdendo dinheiro?

A vinculação existe, mas é em relação ao HRR total da Liga, e não de cada franquia. Dessa forma, o Toronto Maple Leafs gasta 40% do que recebe em salários, enquanto o Phoenix Coyotes pode gastar 70%, que a média ainda dá certo.

A saída para as franquias mais pobres seria gastar menos em salários, mas a relação rígida existente entre teto e piso salarial impossibilita isso.

Em 2005, o teto salarial era de $39 milhões de dólares, e o piso de $21,5 milhões, ou seja, 55% do teto.

Em 2012 o teto foi de $64,3 milhões, e o piso de $48,3 milhões, 75% do teto salarial. Em sete temporadas, o teto salarial subiu 64,9%, enquanto o piso subiu 124%.

Assim, as equipes mais pobres (em geral, as mais fracas, e que tem problemas para atrair bons jogadores) tem que pagar salários mais altos do que podem para atrair jogadores que não valem tudo aquilo. Isso inflaciona os salários de quem realmente merece receber mais, e acaba trazendo problemas para todos.

E as franquias estão mesmo perdendo tanto dinheiro?

Não exatamente. As fontes são os próprios times e seus proprietários, que não são muito confiáveis.

Por exemplo, a Forbes aferiu que Washington Capitals e Florida Panthers tiveram prejuízos em torno de 7% cada um na última temporada. Esse cálculo não inclui o valor pago pelo uso dos camarotes não pertencentes às franquias.

O que ninguém nos conta é que os camarotes do Verizon Center, onde jogam os Capitals, são de propriedade de Ted Leonsis, que também é dono da franquia. Os livros contábeis dizem que a renda dos camarotes é de Leonsis, e que esses valores não estão no nome dos Capitals, mas na verdade é a mesma coisa.

Algo parecido ocorre com os Panthers, cujo dono, o grupo Sunrise Sports and Entertainment, também opera a arena BB&T Center. Ou seja, o valor da venda dos camarotes não vai para a "Sunrise dona dos Panthers", mas vai para a "Sunrise operadora da arena".

Então os proprietários estão todos errados e os jogadores todos certos, é isso?

Os proprietários com certeza estão errados, mas os atletas também não são santos. Como já explicado na TheSlot.com.br, os salários são calculados em cima da projeção de HRR para a temporada, em que pode ou não ser aplicada uma alíquota inflacionária de 5%.

Os jogadores decidiram por aplicar essa alíquota em cinco temporadas, e o teto salarial acabou por aumentar em média 10,8% por temporada, enquanto a HRR cresceu em média 7,1%. Isso não significa que os jogadores ganharam dinheiro em cima dos proprietários, pois a caução (garantia explicada no mesmo artigo de TheSlot.com.br) limitava os salários a 57% do HRR, mas já mostra que os atletas não foram sempre realistas em seus cálculos.

Mas como os proprietários pretendem reduzir a porcentagem destinada aos atletas?

A proposta da Liga é de reduzir essa porcentagem imediatamente, o que os atletas obviamente rejeitam. A contraproposta dos jogadores é de uma redução gradual na porcentagem, baseada no aumento gradual da HRR, o que acabaria por nivelar as coisas e manter os salários constantes pelos próximos anos.

De qualquer forma os jogadores vão ter alguma espécie de redução. Uma diminuição na porcentagem resulta em redução de salários, seja uma redução direta (diminuir o salário nominal, ou seja, quem recebe $10 milhões passa a receber $7,5) ou indireta (mesmo que o salário não seja reduzido nominalmente, no fim da temporada a caução come um pedaço do salário).

Como os envolvidos pretendem se sustentar durante a paralisação?

Mais de 100 atletas já assinaram contratos em ligas europeias, que oferecem salários bem razoáveis (e sujeitos a menor tributação). Mesmo entre aqueles que preferem não se arriscar vão conseguir se manter, graças a experiência adquirida no último locaute.

Os proprietários se consolam com o fato de o contrato da NBC ser válido mesmo com a paralisação, com o pagamento de $200 milhões sendo feito mesmo que não ocorra temporada (se isso acontecer a NBC não precisa pagar pelos direitos da temporada de 2020, mas as franquias são imediatistas e não se importam com isso agora).

Ainda assim, a NHL é a liga que mais depende da bilheteria na América do Norte. Enquanto as franquias de outras esportes tem no máximo 33% de sua renda oriunda de ingressos, na NHL essa dependência chega a 50%. Em algum momento a falta de jogos vai começar a pegar os proprietários pelo bolso, e, ao contrário de 2004, nenhuma franquia pode dizer que vai perder menos com o locaute do que com uma temporada normal.

Que papel as mídias sociais tem nas negociações?

Na prática, nenhum. Movimentações organizadas por torcedores até agora foram vergonhosas (menos de 20 pessoas apareceram para protestar no dia 15 de setembro, quando expirou o antigo Acordo), e não tem efeito nenhum.

Mas se o último locaute serviu para transformar o hóquei no esporte mais "interativo" dos Estados Unidos (a falta de cobertura da mídia esportiva tradicional influenciou a criação da maioria dos blogs de hóquei hoje consagrados), dessa vez são os jogadores que se aproveitam dos novos meios de comunicação para se expressar.

Krys Barch usou seu twitter para ventilar seus sentimentos regados a álcool, se perguntando se algum proprietário já se machucou por causa do esporte, imaginando os donos sentados em uma de suas cinco casas, ou em seus aviões bebendo o mesmo conhaque, enquanto tentavam consertar as burradas que fizeram, apagar os contratos que assinaram e simplesmente enfiar as mãos nos bolsos dos atletas para pegar 20% dos salários de volta.

Ah, calma aí. Nessa disputa de bilionários contra milionários, o cara que ganha a vida jogando hóquei vem reclamar de dinheiro?

Bom, a disputa é por dinheiro, mas também não é.

Tem algo de repugnante em ver a NHL propondo limites de cinco anos de duração de contratos, e assinar contratos de seis, sete ou treze anos no último dia do antigo Acordo. É ridículo que proprietários assinem contratos de $100 milhões enquanto pretendem pagar apenas $70 milhões.

Pior ainda (principalmente para os torcedores dos Red Wings) é ouvir Jim Devellano chamando os jogadores de "gado", nesse "rancho" que é a NHL.

Sete anos atrás a Liga reduziu salários em 24%, e agora pretende a mesma coisa. Os proprietários mostram seu desdém pela torcida ao proibir os atletas de fazer o que eles sabem, e conscientemente se utilizam do locaute como meio de negociação, e os atletas querem mostrar que não são meros funcionários.

E já dissemos, essa briga é menos "bilionários vs. milionários" e mais "bilionários vs. bilionários". Embora a votação a favor do locaute tenha sido unânime, é difícil acreditar que os proprietários das poucas franquias que dão lucro estão felizes com a paralisação.

A NHL já pensou em alguma solução que não seja um novo Acordo, para começar a temporada logo?

Rumores deram conta que a Liga considerou a possibilidade de usar jogadores substitutos até conseguir finalizar as negociações com o Sindicato de Jogadores.

Mas substitutos nunca dão certo. Os jogadores substitutos dos New York Giants afundaram o time da NFL em 1987, os juízes substitutos da NFL quase causaram uma guerra mês passado, e o Keanu Reeves dançou "I Will Survive" na cadeia.

Esse plano não tem chance de funcionar. Primeiro porque não é uma greve, e sim um locaute. Se fosse uma greve, os "fura-greve" poderiam ceder e ir para o gelo, mas a entrada de atletas substitutos abriria a possibilidade de centenas de processos de jogadores contra a NHL.

Em segundo lugar, como já dito, a NHL não é a única liga que um jogador pode disputar. Seja na Liga Continental (KHL) da Rússia, onde já estão Ilya Kovalchuk, Evgeni Malkin, Pavel Datsyuk e Alex Ovechkin (que já disse que pode continuar na KHL mesmo após o fim do locaute), na liga Sueca, Tcheca, ou alguma liga menor norte-americana, os jogadores tem opções, ao contrário de outros esportes.

E em terceiro lugar, dessa vez os jogadores estão unidos, dispostos a não ceder. Adrian Aucoin disse que todos já esperavam por isso. Os jogadores instruíram o Sindicato a não fazer uma proposta agora, e esperar  o próximo passo da Liga. Um jogador anônimo disse que "os jogadores estão unidos para arrancar o sorriso da cara de Gary Bettman".

E os jogadores, o que podem fazer?

"Podem fazer" não, já fizeram. Os jogadores do Montreal Canadiens (em Quebec), Calgary Flames e Edmonton Oilers (em Alberta) ajuizaram ações coletivas na justiça trabalhista, arguindo que eles não podem sofrer um locaute.

Em Quebec, o fundamento é que o Sindicato dos Jogadores não é reconhecido pela lei trabalhista local. Em Alberta, dizem que o locaute não pode ocorrer antes de uma tentativa de conciliação. A justiça de Quebec negou o pedido de tutela antecipada, e em Alberta as partes já foram ouvidas, e uma decisão deve sair nas próximas semanas.

Caso os atletas tenham êxito em alguns desses processos, eles não podem ser locauteados (?) e devem continuar recebendo salários normalmente. Isso não acaba com a paralisação nas outras cidades, mas já serve como mais uma vitória moral para os jogadores, uma vitória no tribunal para somar às vitórias na mídia.

Mas a divisão de renda não é a única questão. E a duração de contratos e tudo mais?

Não surgiram muitos detalhes sobre a duração de contratos e o tempo de vínculo de agentes-livres. Mas nos últimos dias as partes se encontraram para discutir assuntos menores, e daí já surgiram problemas.

Foi discutida a fórmula utilizada para calcular a HRR, e quem deve pagar pela presença de mais de um médico para jogos fora de casa. Também um papo ridículo sobre divisão de quartos de hotel, para os atletas ficarem sozinhos, e vai se ferrar todo mundo.

Tá brincando...

Não.

Ok, então... desisto.

Te entendo. Se tiver alguma dúvida, pergunte nos comentários. Boa sorte.